segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Bendito quitute


Biscoito de polvilho é tradição em Córrego do Bom Jesus

Iara Siqueira

Biscoito de polvilho, goiabinha, bolo de milho verde, pão de queijo, broa entre outras guloseimas acompanhadas de uma boa prosa e de um cafezinho... Só de pensar já dá água na boca? A massa ganha forma, tamanho e sabor variados, verdadeiras obras de arte. Entre todos esses quitutes, o que mais chama a atenção é o biscoito de polvilho fresquinho, feito artesanalmente e assado no forno à lenha, o que rende o apelido carinhoso de “biscoiteiros” aos moradores do Córrego do Bom Jesus, com cerca de quatro mil habitantes.

Mas a fama de biscoiteiro começou muito antes do que se possa imaginar. No ano de 1944, período da Segunda Guerra Mundial, a escassez de alimento e de dinheiro no país era freqüente. Pensando nisso, Olímpio Ferraz, morador da cidade, dono de um armazém de secos e molhados, também fazia trabalhos em ferragem no fundo de sua casa. O comerciante teve a ideia de fazer uma cunha, e começou a criar moedas para serem utilizadas no comércio. A princípio as moedas iriam ficar só no município, mas se espalharam por outras cidades da região. A moeda feita em alumínio amarelo vinha com a seguinte descrição: Casa Ferraz-Vale um biscoito e na outra parte as iniciais O.F do dono do armazém. Desde então a fama de “biscoiteiro” foi difundida não registro se o nome biscoiteiro veio antes ou depois das moedas.

Outra curiosidade é que os “biscoiteiros “não se misturavam com os moradores da cidade vizinha Cambuí localizada a 5 km, conhecido como broeiros, como conta o senhor Sebastião Costa, 67 anos, morador de Córrego. “Antigamente existia uma rivalidade. Quando tinha festa e um ia à cidade do outro, dava até briga”, diz em tom de riso. Ele cresceu vendo sua avó dona Emília Maria de Jesus, fazer doce de leite, pé de moleque, doces em calda e principalmente o biscoito. “Sempre tinha bastante gente na casa da minha avó, ela pegava uma gamela, depois derretia a banha de porco e colocava no biscoito, assava no forno de barro e guardava em tabuleiros, depois era vendido no armazém, explica. “O biscoito antigamente era diferente do de hoje, era um biscoito mais pesado, mais gostoso, diz Sebastião.

Atualmente, o biscoito é uma fonte de renda como conta a biscoiteira Maria de Lurdes Terezzo. “Eu comecei a fazer os quitutes por distração, por ser um serviço perto da minha casa além de ajudar na renda familiar”. Dona Maria diz que o trabalho também é uma terapia. “Quando você está mexendo na massa dá para esquecer do cotidiano e concentrar só no que você está fazendo ali “.

O comerciante Antônio Rodrigues dono de um mini mercado e padaria, diz que a procura pelo biscoito em seu estabelecimento é constante principalmente para revender o produto. “O pessoal passa por aqui e acaba comprando um biscoitinho”, comenta.

Já Luis Gonzaga que faz biscoito, há 14 anos e afirma que além dos ingredientes como polvilho azedo, sal e água é preciso ter dom e muita habilidade. “Não se pode amassar de qualquer jeito, o forno tem que estar aquecido na temperatura certa 180 º graus” enfatiza. Além de alguns segredinhos como “assar o biscoito na folha de bananeira para não grudar. É importante que essa tradição seja passada adiante para que não acabar”, ressalta.

O biscoito é feito na cozinha que fica ao lado do Centro de Informações Turísticas (CIT) lugar rústico, simples, porém muito aconchegante, que encanta aos visitantes pelas belezas dos artesanatos, produtos da terra feitos por moradores do município. Na cozinha trabalham quatro membros da Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Córrego do Bom Jesus, seu Luís Gonzaga, Dona Ana Rosa, Maria de Lurdes e Dona Serafina responsáveis por essas deliciosas guloseimas. Segundo a responsável pela Seção de Turismo da Prefeitura da cidade, Rafaela Ferreira da Silva, “o biscoito é um atrativo turístico, pois a cidade recebe muitas pessoas principalmente do Estado de São Paulo, com interesse de conhecer um pouco da história local e os produtos típicos”, explica.

No mês de agosto acontece a tradicional festa do padroeiro da cidade o Bom Jesus, o que atrai vários turistas para ,a cidade. São montados ‘stands’ com os biscoitos e outros quitutes feitos na cidade, para que o turista possa experimentar. No ano passado dona Maria Antônia Marques Finamor, 74 anos, ajudou a preparar as quitandas para a alvorada da festa, dia em que começa a novena para o Bom Jesus.

Dona Maria Antônia faz o biscoito de polvilho em sua casa no forno do terreiro. “Eu aprendi fazer o biscoito sozinha, ninguém me ensinou, desde pequena ficava olhando minha mãe fazer e aprendi. Ela tem filhos em outras cidades, sempre que os filhos e netos vêm visitá-la ela prepara biscoito e outras gostosuras para recebê-los. Com seu jeitinho e ingrediente diferentes como farinha de milho, leite, gordura e polvilho azedo, dá um toque diferente do tradicional. A dona de casa revela alguns truques para fazer o biscoito, “se não souber a temperatura adequada o biscoito não dá certo, e biscoito tem que ser bom”, finaliza.

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